Quanto custa sua opinião?
reflexões
A eleição acabou. A democracia venceu. Teremos mais quatro anos para pensarmos sobre como vamos continuar com essa democracia. Dá medo, mas pelo menos temos tempo. Temos tempo também de aproveitar para nos despedirmos de um dos maiores líderes que o Brasil já viu. Quiçá o mundo.
No meio de tudo isso, de todas as discussões inflamadas, pensei em uma coisa.
Durante semanas, minha tela foi um comício. Era vídeo, gráfico, fio com dez motivos, gente pedindo para virar o voto de um tio e, no meio de tudo, um tipo de post começou a se repetir: "me posicionei e perdi 100 mil seguidores", às vezes eram 200 mil, às vezes 500 mil. O número mudava, mas a ideia central não.
Fiquei pensando nesse tipo de anúncio. Em parte, é um desabafo, eu sei. Hoje em dia muitas pessoas vivem de serem influencers e também sei que perder gente dói, mesmo gente que a gente nunca viu. Mas fiquei pensando que talvez esse discurso também diga outra coisa, mais baixinho, algo do tipo “olha o tamanho da minha coragem”. A perda vira medalha. Quanto mais gente foi embora, mais valioso parece ter sido o que eu disse.
É um tipo de ganho secundário, um sofrimento que, sem deixar de ser sofrimento, passa a render alguma coisa, como atenção, cuidado ou um lugar. O seguidor perdido é perdido de fato, mas, contado em público, volta como aplauso de quem ficou. Uma perda exibida já começa a deixar de ser só perda.
Não quero ser injusto, sei que tem gente que paga caro de verdade por se posicionar, pode perder contrato, receber ameaça, perder renda. Mesmo assim, me chama atenção que a régua seja sempre a mesma. Quem ganhou seguidores mostra o print do crescimento e quem perdeu mostra o print da queda. Os dois dizem a mesma coisa. Acaba que o que a pessoa disse vale pelo quanto mexeu na contagem.
É aí que uma pergunta fica na minha cabeça. Que sociedade a gente se diz quando o valor de uma posição é medido em quantas pessoas ela afastou ou atraiu? Uma opinião deveria ser pesada pelo que afirma, pelo que defende, pelo que custa a quem é afetado por ela, não pelo que custa ao perfil de quem falou.
Quando o número vira assunto, a posição sai de cena. Ninguém comenta o argumento, comenta o tamanho do êxodo. A discussão sobre o país vira discussão sobre a conta de alguém e quem falou deixa de ser alguém que pensa algo para virar alguém que suportou algo. Troca curiosa, a gente arrisca uma ideia e volta com uma história de martírio.
Não acho que seja calculado. Acho que a gente aprendeu a se medir assim. Antes de saber se o que disse fazia sentido, já sabe quanta gente reagiu. Assim fica difícil sustentar uma posição sem olhar o placar, porque o placar está ali, embaixo de tudo, atualizando sozinho.
Talvez o exercício seja esse, se posicionar e não contar. Dizer o que pensa e deixar a contagem quieta. Se perdeu gente, perdeu; se ganhou, ganhou. Isso importa pouco perto do que foi dito, e de se aquilo continua de pé amanhã, quando ninguém mais estiver olhando.
Uma posição que só existe enquanto alguém aplaude ou vai embora talvez não seja uma posição. Talvez seja uma apresentação com plateia. E plateia, a gente sabe, sempre vai embora no fim.