#2 - Café pilão e tapioca
Atualizado: 16 de set.
Causos para estudo
Anos atrás fiz minha primeira viagem para um país asiático, um lugar onde eu não falava a língua, não conhecia a cultura e não entendia nada do que estava escrito ou era dito ao meu redor. Era mais um daqueles desconfortos confortáveis. Fui acompanhado de um amigo antigo, mas que não fala a mesma língua que eu. Então, entre nós, a comunicação sempre se deu por um idioma mais dele do que meu. Eu pousei de manhã cedo, estávamos vindo de lugares diferentes. Ele chegaria só à noite. Então eu passei praticamente o dia inteiro sozinho na cidade antes disso.
Saí para andar sem internet no celular, sem saber muito bem aonde estava indo, só queria entender o raio ao redor do hotel. De cara fui recebido por um excesso de placas, sons, gestos, tudo meio cifrado. Não era desconforto exatamente o que eu sentia, era mais uma overdose de informação sem nenhuma chave para organizar aquilo. Um misto de empolgação do antropólogo com o medo do desconhecido. Fiquei ali passeando naquele estado, mas dessa vez sem escolher entrar nele, fui simplesmente jogado lá. Quer dizer, escolhi ir, mas talvez não tenha pesquisado muito antes. Sabe aqueles programas de TV de sobrevivência onde o participante é jogado em um lugar desconhecido e tem que sobreviver por dias? Então, não era uma prova de sobrevivência, mas por um momento pareceu que sim. Todas aquelas informações novas foram se acumulando, virando ansiedade sem nome, eu não conseguia formular nem pra mim mesmo o que estava sentindo, só sentia.
E aqui dou uma pausa, porque sou uma pessoa que gosta de pensar sobre as coisas mas sem chegar à conclusão nenhuma. Sentir também é interessante, talvez mais do que elaborar. Naquele momento me permiti apenas sentir, ser uma espécie de esponja que recebe tudo sem precisar espremer de volta nenhum sentido imediato. Meu lado analítico resolveria aquele desconforto de forma rápida, mas meu exercício ali era o contrário, era não resolver, era aceitar que o “não ter resposta” é uma forma de cavar mais fundo dentro de nós mesmos. Em um mundo em que precisamos ter respostas para tudo, é quase absurdo pensar em dizer um “não sei” ou “não tenho opinião sobre isso”.
Em algum momento percebi que esperava meu amigo chegar como quem espera uma âncora, alguém que ao menos me reconhecesse, mesmo sem dividirmos uma língua base entre nós. Mas eu esperava uma âncora daquelas de transatlântico e esqueci que estava numa jangada de bambu. Quando ele chegou, à noite, saímos para comer e fomos conversando em inglês. Estranho é que aquele sentimento de não pertencimento não diminuiu, só foi junto pro jantar com a gente.
À noite, no hotel, veio o auge disso tudo. Fiquei inquieto, com uma dificuldade irreal de respirar, sem conseguir dormir, entre o jet lag e uma angústia que eu não sabia nomear (talvez soubesse, e o nome fosse angústia mesmo). Acordei meu amigo e falei que não estava legal, que não conseguia respirar direito. Ele perguntou como podia ajudar, e eu respondi que não sabia, porque eu mesmo não sabia. Andei de um lado para o outro, lavei o rosto, coloquei uma roupa e achei que sair para dar uma volta às duas da manhã fosse uma boa ideia. Ledo engano. Coloquei o pé para fora do hotel e na primeira placa com a escrita estranha pra mim, virei e entrei de novo.
Foi então que, sem pensar direito no fuso horário, peguei o telefone e liguei pra minha mãe. Ela atendeu. E assim que comecei a falar em português, alguma coisa em mim começou a se acalmar. Não foi o conteúdo da conversa, mas sim o próprio som da língua, esse idioma que carrega dentro dele uma infância inteira, uma casa inteira, um lar. O coração acalmou, a ansiedade baixou. Era a língua? Era o fato de ser minha mãe? Até hoje eu não sei. Talvez a combinação de tudo.
No decorrer da viagem o sentimento não foi embora, mas aprendi a conviver com ele, a entender que era parte de um processo de aceitar que o mundo é gigante, que coisas fogem ao controle e que eu não tenho (e não terei nunca) resposta pra tudo. E tá tudo bem.
Isso me fez lembrar de outra vez, quando me mudei pra fora do Brasil, e entre as coisas que trouxe na mala estavam tapioca e café pilão. Não porque eu não conseguisse viver sem essas coisas especificamente, mas porque elas me devolviam algo do sabor de estar em casa, todos os dias de manhã. Uma casa que me lembrava conforto, mesmo que muitas vezes sentisse desconforto dentro dela.
Freud tem um ensaio chamado ‘O Estranho’, onde explora essa palavra alemã, unheimlich, que costuma ser traduzida como o estranho, mas que carrega dentro de si a própria palavra heimlich, que significa familiar, doméstico, de casa. O argumento dele é que o mais perturbador não é necessariamente aquilo que nunca vimos, é aquilo que era familiar e de repente se torna estranho, ou o contrário, aquilo que reconhecemos de repente no meio do que deveria ser totalmente alheio. Acho que foi mais ou menos isso que aconteceu naquela madrugada. No meio de um lugar desconhecido, foi o próprio som da minha língua, e depois o gosto de um café e de uma tapioca, que me devolveram um pedaço de casa. Não uma casa geográfica, mas uma espécie de lar que carrego dentro de mim e que só aparece quando o resto do mundo perde toda familiaridade.
Fico pensando hoje que talvez não tenha sido a voz da minha mãe especificamente o que me acalmou naquela noite, mas o idioma em si, o som familiar antes mesmo do significado. Como se a língua mãe fizesse um trabalho que nenhuma outra consegue. Não o de explicar o mundo, mas o de me lembrar que eu ainda tenho um lugar de onde venho, mesmo quando estou em algum lugar onde nada me reconhece. Talvez por isso é chamado de língua mãe, ou língua materna. Sei que mãe não é algo que todo mundo pode se gabar de ter, infelizmente, mas a língua sim. É algo nosso, criado com nossas próprias palavras e maneiras de dizer as coisas, capaz de nos trazer de volta para um lugar de conforto mesmo em meio ao desconforto. Talvez falar com nós mesmos não seja um sinal de loucura, e sim um sinal de acolhimento e autocuidado.