#1 - O cachorro-quente disfarçado
Atualizado: 16 de set.
Causos para estudo
Sempre tive um pé exploratório. Desde adolescente gostava de me colocar em situações em que o desconforto era inevitável e presente; a partir daí, gostava de olhar pra mim e ao meu redor para perceber o que acontecia. Com o tempo, esses lugares de desconforto se tornaram quase que lugares de conforto. Um conforto desconfortável, por assim dizer. Talvez um paradoxo, ou simplesmente, um lado antropológico meu que exploro constantemente.
Pois bem, trabalho às vezes como garçom e bartender em eventos, um trabalho a parte que gosto de fazer para alimentar esse antropólogo dentro de mim. Observo de dentro um mundo que não é bem o meu, mas que de alguma forma eu também pertenço. Um lugar humano, de troca, de cuidado e de desconforto pelo qual todo mundo já passou alguma vez na vida. É um lugar em que em alguns dias estou como trabalhador, e em outros como participante do evento.
Foi num evento infantil, num museu de ciência, que esse causo aconteceu.
Eu estava numa fila servindo cachorro-quente para as crianças e pais. A ordem era clara, um por pessoa, e as crianças iam passando naturalmente dentro dessa lógica. Até que chegou um menino de jaquetinha laranja, dessas de inverno, e me pediu dois. Expliquei a ele a regra e disse que se sobrasse, ele poderia voltar mais tarde que não teria problema algum, mas que naquele momento, não poderia dar os dois. Ele aceitou numa boa, pegou o dele e foi embora feliz, com o pai do lado.
Alguns minutos depois ele voltou. Sem a jaquetinha, mas com ela na mão, o que tornava impossível não o reconhecer. E ali já estava o interessante, porque não havia disfarce nenhum de verdade. Ele não trocou de roupa, não escondeu o rosto, não mudou a postura. Tirou a peça mais óbvia, que eu tinha acabado de ver minutos antes. Era um disfarce que não queria enganar, mas sim ser flagrado, queria criar uma ficção pequena que só funcionaria se eu topasse entrar nela junto com ele.
E eu topei.
Ele chegou perto e falou baixinho, com um sorriso cúmplice, “finge que não me conhece mas eu queria outro cachorro quente”. Fiz um teatro de recepcionar um convidado novo, como se fosse uma figura real. “Bem-vindo! Espero que esteja gostando do evento! Ah, você quer um cachorro-quente? Claro! Aqui está! Aproveite!” e dei o cachorro-quente pra ele. O pai riu do lado, entendendo todo o jogo e de uma forma sutil, se mantendo fora do mise en scène, deixou tudo acontecer como se não fosse da conta dele participar. E talvez não fosse mesmo. Mas como figura cuidadora, seria normal se ele entrasse na brincadeira ou se até cortasse a brincadeira com um “Agradece ao tio pelo cachorro-quente”. Eu não era o tio e ele não era um menino. Ao ponto de que a figura cuidadora do lado, também não era o pai. Havia ali uma espécie de licença silenciosa onde pai permitiu que o filho, que não tinha mais do que 4 ou 5 anos, armasse sozinho essa ficção com um estranho, sem intervir, sem proteger, sem nem participar. Como se soubesse que aquele jogo só teria valor se fosse só de nós dois, e que entrar nele seria estragar a graça daquilo.
Na hora de ir embora o menino não resistiu, virou pra mim e perguntou, “mas você me conhece né? Você lembra de mim?”. Eu disse que não, que ele tinha acabado de chegar, o que deixou ele visivelmente confuso, quase incomodado. A brincadeira que ele mesmo tinha criado virou por um instante uma dúvida real. Foi aí que dei uma piscadinha, e ele relaxou, sorriu e entendeu que sim, eu sabia quem ele era.
O que fica para mim dessa cena é como o disfarce nunca era realmente sobre enganar. Freud falava de algo parecido, ao meu entender, quando descrevia a brincadeira do carretel (fort-da), onde o pequeno Ernst lançava um objeto para fora do berço e o trazia de volta, repetindo sozinho a experiência de perder e reencontrar. Não é exatamente essa mesma cena com o garoto da jaqueta laranja, mas tem um certo tipo de ligação, porque o menino também estava testando essa dobra entre sumir e ser reencontrado, entre criar uma distância e depois confirmar que o laço ainda estava lá. Naquele momento eu era o carretel, um estranho. O pai, a figura que provavelmente sustentaria esse jogo em um outro ambiente, ficou de fora. Talvez seja isso que faz certas brincadeiras de crianças precisarem de uma figura mais ‘estranha’ de vez em quando, alguém que esteja fora do circuito de proteção de sempre, para que a experiência de perder e reencontrar tenha um risco de verdade nela.
Quando eu levei o jogo longe demais, quando fingi bem demais que não o reconhecia, ele não aguentou a incerteza. Precisou confirmar que por trás da encenação alguém ainda o via, ainda sabia quem ele era. Tem algo aí sobre como às vezes a gente constrói disfarces que não necessariamente são feitos para nos esconder, mas ao contrário, que de alguma forma nos faça ser vistos. E como a angústia aparece não quando somos descobertos, mas quando corremos o risco de não sermos reconhecidos de jeito nenhum.
Talvez nada disso tenha marcado o menino como me marcou. Talvez o desejo dele ali fossem apenas os dois cachorros-quentes. Talvez o pai tenha aprendido uma lição, talvez só estivesse cansado de um dia inteiro de trabalho e inconscientemente tenha me agradecido por ter participado daquela cena. Talvez não. Talvez esse seja só um causo bobo que uso para o meu próprio aprendizado egoísta. Talvez sim, talvez não. Nunca vou saber, mas a ideia é exatamente essa.