#4 - O causo que não vou contar
Atualizado: 16 de set.
Causos para estudo
Tem um pensamento que me ocorreu outro dia, um daqueles que surgem rápido, meio sem aviso e que eu nunca contaria pra ninguém. Não vou dizer qual foi. Nem o assunto, nem o contexto, nem o rosto que ele tinha na minha cabeça enquanto passava. Esse texto nasce exatamente dali, de um pensamento que ficou só meu e talvez seja mais honesto assim, deixar o causo em si intocado e escrever só sobre o que acontece no espaço em volta dele.
Porque a verdade é que quase todo mundo carrega algo parecido. Um fetiche que nunca disse em voz alta, um julgamento sobre alguém, que surge e desaparece rápido, envergonhado da própria existência. Uma ideia estranha, um sonho constrangedor, uma vontade. Coisas que passam pela cabeça e que a gente empurra pra dentro de novo antes mesmo de terminar de pensar, como se fechasse uma gaveta rápido demais pra não ver direito o que tinha lá dentro.
O curioso é que, tecnicamente, ninguém está escutando quando a gente pensa. Estamos sozinhos, dentro da própria cabeça, sem plateia nenhuma, sem julgamento externo possível. E ainda assim sentimos vergonha. Ainda assim o coração acelera um pouco, ainda assim vem aquele impulso de varrer o pensamento pra debaixo do tapete rapidamente, como se alguém pudesse ter visto. Mas quem?
Acho que a resposta é que nunca estamos de fato sozinhos, nem dentro da própria mente. Existe uma instância psíquica, o que a psicanálise chama de superego, formada ao longo da vida a partir de figuras de autoridade que fomos internalizando, pai, mãe, professores, religião, sociedade, e que continua ativa muito depois dessas figuras terem saído de cena fisicamente. Esse superego funciona como um tipo de ouvinte interno permanente, alguém que julga, que vigia e que se incomoda com certos pensamentos antes mesmo que eles cheguem a virar palavra dita em voz alta para outra pessoa. Ele não precisa de plateia externa para funcionar, porque ele mesmo já é a plateia, instalada dentro da nossa própria cabeça, ouvindo tudo que pensamos, inclusive, ou principalmente, aquilo que nunca sairia da nossa boca.
Então talvez o silêncio nunca seja total. Talvez a gente esconda esses pensamentos não das outras pessoas, que de fato não têm acesso a eles, mas de nós mesmos, ou melhor, de uma parte de nós mesmos que se comporta como se fosse outra pessoa. Uma parte que julga com a mesma severidade que um pai julgaria, ou um padre, ou um professor antigo, mesmo quando esses pais, padres e professores já não estão nem perto.
Fico pensando se esconder um pensamento de si mesmo não é, no fundo, mais cansativo do que escondê-lo dos outros. Com os outros a gente escolhe, mede a situação, decide se vale a pena contar ou não. Com esse ouvinte interno não tem muita escolha, ele está sempre ali, mesmo quando o pensamento nem chegou a se formar direito, mesmo quando é só um lampejo passando rápido demais pra ter nome. E talvez seja exatamente por isso que certos causos nunca vão virar texto nenhum, nem esse, nem os próximos. Ficam guardados, não porque alguém de fora esteja escutando, mas porque uma parte de nós sempre está.