#3 - O tempo que se pe[r]de
Atualizado: 16 de set.
Causos para estudo
Reparo muito nos meus amigos e amigas se desculpando por mandar mensagens longas no WhatsApp, ou até mesmo por mandarem uma mensagem de áudio, independente de quão longa ela seja. Desculpa me alongar, desculpa o áudio, desculpa a demora. Um dia, que enviei um áudio, um amigo começou a resposta dele, também em áudio, com um “desculpa mandar mensagem de áudio, ah, mas você também mandou, então vai se ferrar!”. Ri, mas a frase ficou martelando, porque por trás da brincadeira tinha uma verdade incômoda, a de que pedir desculpa pelo tamanho da mensagem é, no fundo, pedir desculpas por estar pedindo tempo demais de alguém.
Toda mensagem carrega um pedido dentro dela, esse pedido nunca é só o conteúdo que está sendo dito, é também um pedido de tempo. Não o tempo do relógio, não segundos específicos, mas sim um tipo de tempo psíquico, o espaço que a gente pede para ocupar dentro da cabeça de alguém por alguns segundos, minutos e às vezes até mais. Toda comunicação é isso, uma pequena invasão consentida do tempo do outro. Toda comunicação exige atenção, todo cuidado exige tempo.
Antigamente uma carta levava dias para chegar, e quem escrevia sabia disso, escrevia já contando com a demora, já aceitando esse espaço. Um pouco depois, uma ligação de telefone exigiria outro tipo de tempo, o de duas pessoas presentes simultaneamente, uma esperando o toque, a outra decidindo atender ou não. Hoje uma mensagem chega instantaneamente, mas o tempo que ela pede do outro não desapareceu, só ficou invisível. Chamamos de ´mensagem instantânea´, porém esquecemos que é a mensagem que é instantânea, não a resposta. A gente esconde o pedido de tempo atrás da velocidade do envio, e por isso talvez sinta a necessidade de pedir desculpas antes, como se estivesse revelando um pedido que preferia manter disfarçado. Uma vergonha por pedir o tempo de alguém quando ouvimos que ‘tempo é dinheiro’.
Lacan tem essa ideia de que todo pedido concreto carrega, escondido dentro dele, uma demanda de outra ordem, algo relacionada a presença, a atenção, ao desejo do outro de fato estar ali. Não vou entrar fundo nisso porque é um conceito bem mais denso do que consigo resumir com justiça aqui, mas a ideia me ajuda a pensar que o áudio de cinco minutos nunca é só informação, é também uma pergunta silenciosa. Você tem tempo pra mim agora? Você quer estar aqui comigo por esses cinco minutos? Essa pergunta acaba sendo uma abertura sincera de você mesmo para o outro e, consequentemente, do outro para você. É um emaranhado de ligações que tem a mesma intenção, conectar pessoas.
Talvez por isso a resposta do meu amigo tenha sido tão certeira. “Vai se ferrar” não era hostilidade nenhuma, era um reconhecimento mútuo, os dois sabiam que estavam pedindo e dando tempo um ao outro, e que não tinha problema nenhum nisso. Às vezes a desculpa que a gente pede antes de mandar uma mensagem longa não é realmente sobre o outro se incomodar, é sobre a nossa própria dificuldade de admitir que eventualmente a gente precisa mesmo do tempo do outro, e que pedir isso, direto e reto, ainda incomoda mais do que deveria.