#5 - O garoto e seu deus
Causos para estudo
Um dia desses me peguei vasculhando os becos da internet e acabei achando um blog antigo que tinha quando mais jovem. Foi uma sensação interessante reler todos os textos. Em alguns momentos pareciam vindo de um desconhecido, outras vezes eu sabia exatamente onde eu estava quando tinha escrito. Mas um texto especificamente ficou na minha cabeça.
Era assim:
Um dia um garoto disse ao seu deus:
“Por que somos tão idiotas?”
E o deus respondeu:
“Mas os seres humanos não são idiotas. São apenas humanos.”
E o garoto retrucou:
“Não. Eu disse nós. Eu e você.”
(publicado originalmente em 13 de Fevereiro de 2008)
Eu não sei qual foi a intenção inicial deste texto. A primeira coisa que me vem à cabeça é de que era para ser um certo tipo de piada. Talvez você não veja isso como uma piada. Talvez nem eu. Mas fico pensando que talvez seja.
Tentei buscar na lembrança onde eu estava ou o porque tinha escrito esse texto. Não achei nada, mas pensei que a hipótese da piada não era de lá todo ruim. A piada que se apoia na ideia de um garoto dando lição de moral em um deus. Ou na de que o próprio deus, sendo tão egoísta, não pensa que a pergunta pode ser pra ele. Mas acho que mais interessante do porque da piada, é o porque ela ficou martelando na minha cabeça por dias.
Umas das conclusões a que cheguei é de que talvez esse texto diz algo sobre a ambiguidade das coisas, sobre essa confusão constante entre o que é sério e o que é brincadeira, entre o que é profundo e o que é só ruído, entre o que a gente sente de verdade e o que a gente inventa pra ver se sente alguma coisa.
Essa ambiguidade é algo que carrego comigo. Às vezes olho pra vida e penso que é um grande drama, tudo cheio de peso, de significados e de perguntas sem respostas. Aí no segundo seguinte, tudo vira comédia, sem nenhum significado importante.
Acho que o que mais me incomoda, ou o que mais me fascina, é que não dá pra separar essas coisas direito. A vida é, quase sempre, as duas coisas ao mesmo tempo. Trágica e engraçada. Leve e insuportável. Profunda e banal. A gente tenta dar nomes, organizar, classificar, como se fosse possível colocar cada sentimento na sua caixinha, mas na prática está tudo meio misturado. E talvez o máximo que a gente consiga fazer seja rir de vez em quando, ou escrever uma piada ruim num blog antigo e, anos depois, achar que aquilo, na real, fazia mais sentido do que parecia.
Talvez seja isso que me prenda nessa piada. Ela é idiota. E ao mesmo tempo não é. Ela ri de algo que também dói. Ela brinca com algo impossível de entender. E me lembra que, no fundo, ninguém tem muita certeza de nada, nem eu, nem você, nem o garoto da história, nem o deus dele.
Às vezes me pergunto se essa conversa entre o garoto e o deus não acontece todo dia, em silêncio, dentro de mim. Às vezes sou o garoto. Às vezes sou o deus. E às vezes os dois estão só tentando fazer uma piada dar certo.
Freud tem um pequeno ensaio chamado "O Humor", de 1927, onde descreve algo parecido com esse movimento entre o garoto e o deus da minha piada. Para ele, o humor acontece quando o superego se dirige ao eu quase como um adulto falando com uma criança assustada, dizendo que aquele mundo tão perigoso e cheio de peso não passa, no fundo, de um jogo de criança, algo que vale a pena encarar com leveza. Não é negar a dor, é encontrar uma distância de dentro de si mesmo que permite sorrir sem deixar de senti-la. Talvez seja exatamente isso que a piada do garoto fez comigo naquela época. Um pedacinho meu falando com outro pedacinho meu, tentando lembrar que dá pra rir mesmo quando a pergunta não tem resposta boa.
E talvez, só talvez, isso seja suficiente para seguir escrevendo, e observando, e tentando rir, mesmo quando não parece ter graça.